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Planos de saúde a R$ 100? Como o sandbox regulatório da ANS pode transformar o mercado

O acesso a planos de saúde segue sendo um dos maiores desejos dos brasileiros, mas também um dos mais difíceis de alcançar. Pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), realizada pelo Vox Populi, mostra que o plano de saúde figura como sétimo item mais desejado pela população. Ainda assim, o alto custo permanece como principal barreira para a contratação.

Em um cenário de restrições econômicas e aumento dos custos assistenciais, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) instalou, no início de 2024, um sandbox regulatório — um ambiente controlado de testes — para avaliar a viabilidade de um novo tipo de produto mais acessível. A proposta é simples, mas ousada: um plano de aproximadamente R$ 100, com cobertura limitada a consultas médicas eletivas e exames básicos.

Um novo modelo de acesso?

Segundo especialistas do setor, o modelo pode ampliar o acesso à saúde suplementar ao oferecer uma alternativa mais barata e voltada para cuidados essenciais. Para parte do mercado, isso poderia estimular a busca por ações preventivas, reduzir barreiras de entrada e aproximar milhares de brasileiros do sistema privado de saúde.

Entretanto, como alerta o diretor da União dos Corretores de Seguros do Brasil (UCS), Josafá Ferreira, o desafio está no equilíbrio entre preço e sustentabilidade. Um valor muito reduzido pode não ser suficiente para cobrir os custos operacionais e assistenciais mínimos, especialmente se não houver regras que garantam a qualidade e a segurança na prestação do serviço.
Para ele, é fundamental que a ANS assegure que o novo produto atenda às necessidades de saúde dos usuários, independentemente de suas condições preexistentes.

Um mercado mais exigente e consciente

O estudo citado também revela que 38% dos beneficiários entrevistados demonstraram interesse nesse tipo de produto mais acessível. O indicador acompanha uma tendência já observada no mercado: consumidores mais atentos aos benefícios contratados, ao custo e à relação de valor entregue pelos planos.

Nesse movimento, as operadoras têm sido pressionadas a:

  • desenvolver produtos mais inovadores;

  • oferecer planos personalizados;

  • reforçar estratégias de cuidado preventivo;

  • equilibrar custos diante do crescimento da judicialização em saúde.

Esse último ponto, inclusive, segue como um dos grandes fatores de impacto no reajuste de mensalidades e na sustentabilidade das carteiras, já que as decisões judiciais afetam diretamente a previsibilidade financeira do setor.

A preferência por produtos básicos

O levantamento também indica que não beneficiários de Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília demonstram maior interesse em planos voltados apenas para consultas e exames. A tendência pode ser explicada por fatores:

  • econômicos

  • demográficos

  • culturais

  • e pelos próprios Determinantes Sociais da Saúde

Para essa população, um produto simplificado, com preço reduzido e cobertura essencial, pode representar uma alternativa viável diante da impossibilidade de aquisição de planos tradicionais.

O que esperar do sandbox regulatório

Até o momento, o sandbox permanece em fase de desenvolvimento. Ainda não existem planos disponíveis para contratação dentro das condições propostas, e o modelo segue sendo avaliado pela ANS e pelos agentes do setor.

Caso avance, a iniciativa poderá gerar impactos importantes:

  • Pressão competitiva sobre planos tradicionais

  • Estímulo à inovação regulatória e tecnológica

  • Revisão de modelos assistenciais

  • Novas estratégias de segmentação de mercado

Por outro lado, operadoras tradicionais ainda possuem vantagens competitivas relevantes, como rede estabelecida, infraestrutura assistencial mais robusta e maior experiência na operação de produtos complexos.

Um mercado em transformação

O debate sobre planos acessíveis evidencia um movimento natural do setor de saúde suplementar: o esforço por equilibrar custo, qualidade e acesso, especialmente em um ambiente marcado por desafios econômicos e pelo aumento constante da demanda por saúde.

Para escritórios jurídicos especializados, como o GPF Advogados, acompanhar e interpretar essas mudanças regulatórias é essencial para orientar operadoras, corretores e demais agentes do mercado sobre riscos, oportunidades e adequações necessárias diante de um possível novo modelo de produto.

Fonte: CQCS

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