Artigo12 de junho de 2026

O foguete de Elon Musk e o ar rarefeito do Brasil

O foguete de Elon Musk e o ar rarefeito do Brasil

Por Cláudio Pedreira de Freitas - Sócio

O IPO da SpaceX vai espalhar riqueza por milhares de pessoas comuns. No Brasil, o equity ainda é para poucos.

Nesta semana, a SpaceX precifica a maior abertura de capital da história em valor de mercado, beirando US$ 1,75 trilhão, e Elon Musk fez questão de uma cláusula incomum: reservar até trinta por cento da oferta para investidores de varejo. O homem mais rico do planeta quer muita gente dentro.[1]

Assim, cerca de 4.000 pessoas comuns, engenheiros, técnicos, soldadores de foguete, vão acordar mais ricas quando o sino tocar.

Musk, a máquina de fabricar sócios

Musk é, entre outras coisas, uma máquina de fabricar sócios. Em 2002, quando o eBay comprou o PayPal por US$ 1,5 bilhão, a operação criou de uma vez uma classe nova de gente rica, centenas de “PayPal millionaires”, boa parte na casa dos vinte anos.[2]

O grupo virou lenda com nome próprio: a “máfia do PayPal”. Musk, Peter Thiel, Reid Hoffman e os demais saíram daquela única saída e fundaram ou financiaram LinkedIn, YouTube, Yelp, Palantir, Tesla, a própria SpaceX, e uma fatia relevante da indústria de venture capital que bancou quase todo o Vale do Silício.

Na Tesla e na SpaceX, Musk repetiu o desenho. A SpaceX, mesmo fechada por mais de duas décadas, organizou rodadas periódicas de recompra que deram liquidez a funcionários comuns muito antes de qualquer bolsa. Some os que ficaram ricos saindo e os que ficaram ricos exercendo opção por dentro, e um único empreendedor provavelmente já produziu mais milionários do que muitos países produzem em uma geração.

Não é exclusividade de Elon, nem da tecnologia

Quando o Google abriu o capital em 2004, a maior parte dos cerca de 2.500 funcionários virou milionária no papel, incluindo o chef de cozinha e a massagista da empresa. Três anos depois, cerca de mil pessoas detinham mais de US$ 5 milhões em ações.[3] E o fenômeno é ainda mais antigo. No Walmart, Sam Walton tratava o funcionário como dono: gerentes de loja e até caminhoneiros se aposentaram multimilionários por causa de um plano de participação que distribuía a valorização da empresa por quem fazia a empresa funcionar.

E não é exceção: nos Estados Unidos, a maioria das companhias abertas distribui ações abaixo do nível executivo, e cerca de 11,8 milhões de trabalhadores participam de algum plano de remuneração em ações (National Center for Employee Ownership).[4]

Agora desça do foguete e respire o ar da B3

É rarefeito. Entre 2008 e 2021, 136 empresas estrearam na bolsa brasileira. Li, um a um, os prospectos definitivos de um conjunto delas.É constrangedor.

Boa parte sequer tinha plano de remuneração em ações ao abrir o capital. Entre as que tinham, muitas o mantinham apenas no papel. A Intelbras aprovou o plano às vésperas do IPO e o manteve com “efeitos suspensos”. A Vivara aprovou em 2019 e, segundo o próprio formulário, “não outorgou opções”. O Grupo Mateus aprovou dois planos meses antes de estrear, também sem nenhuma outorga.

E quando havia plano de remuneração em ações, era para pouca gente e no topo. A Méliuz, dos perfis mais “tech” do período, tinha cerca de 40 sócios via plano em um quadro de cerca de mil funcionários. A Locaweb registrou 17 beneficiários num evento de exercício. A Magazine Luiza, em 2011, trazia um compromisso de outorga de 2,25 milhões de opções para um único diretor. Os tetos de diluição contam o resto da história: de 2% a 10%, calibrados para diluir o mínimo possível o controlador.

Por que no Brasil o ar é tão rarefeito

Não é só mesquinhez. O ambiente regulatório brasileiro é absolutamente pernicioso para a distribuição da riqueza por meio de planos de remuneração em ações.

Aspecto Tributário. Até hoje paira a dúvida se o ganho com stock options é remuneração tributada, com encargos, ou negócio mercantil. A insegurança custa caro e só recentemente começou a se pacificar.

Aspecto Previdenciário e trabalhista. Se o benefício é tratado como salário, atrai contribuição ao INSS e corre o risco de ser “incorporado” ao contrato, virando passivo trabalhista. Outorgar ações a um diretor é um risco; outorgar a mil funcionários é o mesmo risco multiplicado por mil. O controlador racional recolhe o programa para a diretoria, onde o risco é contável.

Aspecto Cultural. Falta cultura de dono. A tradição brasileira confunde patrimônio do controlador com patrimônio da empresa. Distribuir equity soa como abrir mão de algo seu, não como investir em algo maior.

Aspecto de mercado e de juros. Desde 2021 a B3 não viu um único IPO: zero em 2022, 2023, 2024 e 2025, com a Selic a 15%.[5] Com o dinheiro rendendo dois dígitos sem risco, o equity perde o brilho, o IPO não acontece e o ciclo de distribuição nem chega a começar.

Nubank: a prova provada

E quando uma empresa brasileira quebra o padrão? Vira a exceção que confirma a regra. O Nubank desenhou seu programa de equity com elegibilidade próxima de 100%; mais de 80% do quadro de funcionários recebeu ações em 2020.[6]

Mas repare onde o Nubank se listou: na Bolsa de Nova York. Para distribuir para muitos, comportou-se como tech global e não como companhia brasileira média. A distribuição de riqueza, no Brasil, só chega a quem decide ir além do básico.

Quanto caminho temos a percorrer

O sino da SpaceX vai tocar e fabricar uma nova safra de sócios. A B3, quando a janela reabrir, provavelmente fabricará liquidez para controladores.

Para mudarmos isso, não basta pacificar a tributação e blindar a outorga do risco trabalhista e previdenciário. O desafio verdadeiro é cultural. É decidir que uma boa empresa não é a que concentra propriedade, mas a que a distribui; que o IPO é o momento de transformar quem ajudou a construir em sócio, não apenas de transformar o controlador em líquido.

Mas há uma questão ainda mais profunda. O verdadeiro produto de um programa amplo de equity não é só riqueza, mas uma classe nova de gente capitalizada, milhares de pessoas com meios para investir e empreender.

Quando milhares de funcionários participam da valorização de uma empresa, parte deles se torna investidor, parte se torna fundador, parte financia a próxima geração de empreendedores. O patrimônio distribuído hoje vira inovação amanhã.

O Vale do Silício não foi construído apenas por empresas extraordinárias. Foi construído por sucessivas gerações de pessoas que já haviam participado da criação de riqueza antes. A máfia do PayPal é apenas o exemplo mais famoso de um fenômeno muito maior.

O IPO da SpaceX não distribuirá apenas dinheiro. Distribuirá experiência, capital e poder de investir para milhares de pessoas ao mesmo tempo.

Coragem para arriscar, no Brasil, é o que não nos falta; ao contrário, o empreendedor brasileiro toma riscos imensos todos os dias. Falta-nos volume de capital pulverizado, incentivos sistêmicos e regras do jogo claras que transformam risco em riqueza para muitos.

[1]Arquivamento confidencial na SEC (abr/2026) e cobertura de imprensa (CNBC e outros, mai/2026): SpaceX listaria na Nasdaq sob SPCX, avaliação-alvo de ~US$ 1,75 trilhão (~US$ 135/ação), com até 30% da oferta reservada ao varejo e listagem prevista para junho de 2026. Termos da oferta sujeitos a alteração até a precificação.

[2]PayPal Mafia (Wikipedia; Fortune; The Spokesman-Review): a aquisição pelo eBay por US$ 1,5 bi (2002) criou centenas de PayPal millionaires; ex-funcionários fundaram/financiaram LinkedIn, YouTube, Yelp, Palantir, Affirm, Tesla e SpaceX. Patrimônio de Musk estimado em ~US$ 750 bi (out/2025).

[3]Inc./Associated Press, A Decade Later, a Look Back at Google's Industry-Shaking IPO; This Day in Tech History. Estimativas variam conforme a data de contratação e o critério de milionário.

[4]Walmart: plano de participação nos lucros e Associate Stock Purchase Plan (documentos SEC; CNBC, 2024). Relatos de gerentes e motoristas que se aposentaram multimilionários via participação.

[5]Quantum Finance (set/2025): zero IPOs na B3 entre 2022 e 2025, após 28 (2020) e 46 (2021); Selic mantida em 15% em jul/2025.

[6]Nubank: documentos da oferta (Form F-1/20-F, SEC): elegibilidade próxima de 100% e mais de 80% do quadro com outorgas em 2020; listagem na Bolsa de Nova York (NYSE) em dez/2021.