Artigo10 de junho de 2026

Reforma Tributária e Gestão de Riscos: a importância do diagnóstico fiscal preventivo

Reforma Tributária e Gestão de Riscos: a importância do diagnóstico fiscal preventivo

Por Camila Magalhães

Advogada

Durante muitos anos, a gestão tributária das empresas brasileiras esteve concentrada na preocupação essencialmente operacional de cumprir obrigações acessórias, apurar tributos corretamente e evitar autuações fiscais.

Embora essa postura seja compreensível diante da complexidade do sistema tributário nacional, ela se revela cada vez mais insuficiente em um ambiente de negócios marcado por intensa transformação regulatória. A Reforma Tributária aprovada por meio da Emenda Constitucional nº 132/2023 inaugurou um novo cenário, no qual a análise estratégica da carga tributária deixa de ser mera ferramenta de eficiência para se tornar elemento relevante da governança empresarial.

Em outras palavras, não basta recolher tributos. É necessário compreender como a tributação afeta a rentabilidade, a competitividade e a capacidade de crescimento do negócio.

O custo invisível das escolhas tributárias.

Uma das situações mais recorrentes observadas na prática empresarial é a permanência em estruturas tributárias que deixaram de ser adequadas à realidade econômica da empresa.

Muitas organizações permanecem durante anos no mesmo regime tributário adotado no início de suas atividades, sem que haja uma revisão técnica capaz de avaliar se aquela opção continua sendo a mais eficiente. Alterações no faturamento, na composição das receitas, na margem operacional, no perfil de despesas ou até mesmo no mercado de atuação podem modificar substancialmente a equação tributária do negócio.

A título de exemplo, uma empresa que optou pelo Simples Nacional há alguns anos pode ter crescido, alterado seu mix de receitas ou mudado seu perfil de despesas de forma que o Lucro Presumido ou o Lucro Real seria hoje consideravelmente mais vantajoso.

O contrário também acontece, pois esse descompasso não aparece no balancete como uma linha de custo, ele se oculta, embutido nos tributos pagos mês a mês. Com isso, o resultado nem sempre é percebido de forma imediata.

Diferentemente de outras despesas, o excesso de carga tributária costuma ser absorvido gradualmente pela operação, reduzindo margens, comprometendo a competitividade e consumindo recursos que poderiam ser direcionados à expansão da atividade empresarial.

Por essa razão, a análise periódica da estrutura tributária deve ser compreendida como instrumento de gestão, e não apenas como obrigação contábil.

Recolhimentos indevidos e oportunidades não identificadas.

A complexidade da legislação tributária brasileira também favorece a ocorrência de recolhimentos realizados em desacordo com o regime jurídico aplicável.

Equívocos na composição de bases de cálculo, interpretações superadas pela jurisprudência, aplicação inadequada de alíquotas ou mesmo a ausência de aproveitamento de créditos fiscais podem gerar impactos financeiros relevantes ao longo dos anos.

Não se trata, necessariamente, de erro operacional ou negligência. Em muitos casos, as inconsistências decorrem da própria dinâmica legislativa e jurisprudencial, marcada por alterações frequentes e elevado grau de tecnicidade.

Nesse contexto, o diagnóstico tributário desempenha função relevante ao permitir a identificação tanto de potenciais passivos quanto de oportunidades de racionalização da carga fiscal dentro dos limites estabelecidos pela legislação.

A análise preventiva frequentemente revela distorções que permaneciam ocultas na rotina da empresa e que, quando corrigidas, produzem reflexos diretos sobre o fluxo de caixa e a rentabilidade da operação.

A Reforma Tributária exige planejamento antes da transição.

A Reforma Tributária aprovada em 2023 é a maior transformação do sistema fiscal brasileiro em décadas. A substituição de PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS pelos novos tributos, Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Imposto Seletivo, altera a estrutura de custos e a cadeia de créditos tributários de praticamente todos os setores.

Embora a implementação ocorra de forma gradual até 2033, os efeitos práticos não se restringem ao período final da transição.

As novas regras impactarão cadeias de fornecimento, políticas comerciais, estruturação contratual, formação de preços, aproveitamento de créditos e estratégias de investimento. Em determinados setores, as mudanças poderão representar aumento da carga tributária; em outros, oportunidades de redução de custos e ganho de eficiência.

Por essa razão, a adaptação não deve ser iniciada quando o novo modelo estiver integralmente vigente. Empresas que aguardarem os últimos momentos da transição provavelmente enfrentarão processos de adequação mais custosos, maior insegurança na tomada de decisões e menor capacidade de reorganização estratégica.

O planejamento tributário deixa de ser uma discussão voltada exclusivamente ao presente e passa a incorporar, necessariamente, a preparação para o ambiente regulatório que se consolida.

O passivo tributário oculto e seus reflexos empresariais.

Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito aos riscos tributários ainda não identificados pela organização.

Passivos fiscais ocultos raramente se manifestam em momentos de estabilidade. Em regra, tornam-se visíveis justamente quando a empresa pretende realizar operações relevantes, como captação de investimentos, obtenção de crédito, reorganizações societárias, processos de fusão e aquisição ou expansão para novos mercados.

Nessas circunstâncias, contingências tributárias não mapeadas podem inviabilizar uma operação inteira, reduzir o valor do negócio, dificultar negociações estratégicas e gerar custos inesperados capazes de comprometer decisões empresariais importantes.

O problema, portanto, não está apenas na existência do passivo, mas na ausência de conhecimento prévio sobre sua dimensão e seus potenciais impactos.

Diagnóstico tributário: prevenção, governança e segurança jurídica.

O diagnóstico tributário deve ser compreendido como uma ferramenta de gestão voltada à identificação de riscos, oportunidades e adequações necessárias à realidade da empresa.

Mais do que verificar o cumprimento de obrigações fiscais, o trabalho envolve a análise da estrutura tributária adotada, da consistência dos recolhimentos realizados, das exposições existentes e dos efeitos que a Reforma Tributária poderá produzir sobre a atividade empresarial.

A tomada de decisões, num contexto tão regulado e competitivo como o que verificamos no Brasil, depende de informações confiáveis e de visão estratégica de longo prazo. Conhecer antecipadamente a posição fiscal da empresa significa reduzir incertezas, aprimorar a governança e criar condições mais seguras para o crescimento sustentável.

A experiência nos mostra que os maiores problemas tributários raramente decorrem de decisões deliberadamente tomadas. Na maior parte das vezes, surgem da ausência de revisão, monitoramento e planejamento.

Por isso, o diagnóstico tributário não deve ser visto como medida corretiva destinada apenas a empresas em dificuldade. Trata-se de instrumento preventivo que permite ao empresário compreender sua realidade fiscal atual e preparar sua organização para os desafios do novo sistema tributário brasileiro.

Nesse contexto, a assessoria jurídica especializada exerce papel relevante ao fornecer uma análise técnica integrada, capaz de transformar a tributação de um fator de risco em um elemento de segurança e previsibilidade para a atividade empresarial.